Da masmorra da solidão para o Jardim do Éden

contando os dias para o fim da solidão

Então o Senhor Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”.

Gênesis 2.18 NVI

Obs.: O texto, apesar de interessante, é gigante… prepare-se

Leia com tempo, ou salve para ler depois se quiser dicas de um relacionamento feliz (risos).

Um breve esclarecimento: eu estou ciente e consciente que este post será lido por poucas pessoas, tanto pelo tamanho como pelo assunto. Não é uma tarefa fácil investir tanto tempo (quase 1 mês) e esforço em um post que você sabe que poucos vão ler, mas faz parte. Eu poderia quebrar o post em 2, 3 ou 4 partes, para ficar melhor para mim como editor do blog, melhorar as estatísticas, visualizações, etc. Mas, estou optando por deixar assim para que as pessoas que REALMENTE precisarem, que acredito não devem passar de uma dúzia, possam ler sem interrupção e aproveitar a sequência de pensamentos e acontecimentos. Se Deus quiser, Ele vai me abençoar de outra maneira esse meu esforço e investimento.

A solidão é uma coisa muito triste, principalmente quando você está sozinho (!), se é que você está me entendendo… Eu já morei sozinho durante uma boa parte de minha vida. Sozinho, na verdade verdadeira, não. Mas estou me referindo a sozinho sem uma companheira, sem uma costela ou sem uma Rebeca, no linguajar crentês.

Hoje em dia, os jovens se deparam com o terrível dilema, principalmente as moças: com quem vou me casar? Essa pergunta termina por levar a outras, geralmente sobre as escolhas que temos que fazer durante nossa vida. Eu, como muitos, já fiz muitas escolhas erradas nesta minha [não tão] breve vida. Umas errei por falta de experiência, outras por não saber a quem perguntar ou receber um conselho. Mas, teve aquelas também em que errei por desprezar um conselho.

Dizem que se conselho fosse bom, não se dava, se vendia. Eu já penso diferente: acho que um bom conselho não tem preço, por isso é que se dá. Afinal, quanto você acha que custaria um conselho que salvasse a vida de alguém? Talvez o mesmo preço que se cobraria pelo ar que respiramos. Seria tão caro que, por não ser possível pagar, é de graça. Deus nos dá o ar para respirarmos, o fôlego de vida, gratuitamente, e da mesma forma a Salvação, justamente por não podermos pagar o preço. Ele pagou por nós.

Mas, este post é sobre minha história de casamento, ou da minha fuga da ilha da solidão (risos). Este foi o tema mais votado pelos meus [poucos] leitores. Depois, vou falar também sobre minha conversão, ok? Não mude de canal.

Introdução

Uma coisa que poderia dizer é que sou uma pessoa improvável de escrever um texto sobre felicidade conjugal, afinal todos os meus relacionamentos anteriores ao casamento foram um fracasso. Ok, ok, alguns foram um meio fracasso, outros um fracasso completo, outros, ainda, fracasso e 1/2 mas, no fim das contas, eu sempre perdia. Relacionamento emocional, para mim, era a reprise de um filme triste e trágico: o mocinho sempre morria no final, e esse mocinho era eu… entendeu né!

Seria injusto de minha parte colocar a culpa dos fracassos somente nelas, afinal eu também fiz parte da história. E, para ser franco, a culpa do fracasso, várias vezes (não que eu tenha sido uma espécie de Don Juan… risos), foi minha: escolhi errado. Talvez você, caro(a) leitor(a), esteja se vendo nesse quadro melancólico que estou pintando. Mas, não se vá ainda, pois apesar de ainda borrado, o quadro não está completo. Há cores e matizes a serem pinceladas que vão colorir esse cenário sombrio e sem graça.

O segredo de um relacionamento feliz é a escolha do(a) parceiro(a) com quem iremos dividir o restante de nossas vidas neste mundo hostil. O maior problema da escolha é que é muito difícil acertar. Como somos doutrinados a escolher pelo olhar (aparência) e o que vai realmente impactar é o que está invisível aos olhos (Exupéry, oi?), ou seja, a essência, as escolhas que são movidas pelo olhar tendem a dar errado por inverter valores: valorizar a aparência em detrimento de essência.

Um lar feliz é aquele onde reina o equilíbrio e a harmonia. Um breve adendo aqui: estou estudando música (chique, não?) e descobri a diferença entre melodia e harmonia (antes, nem sabia o que era uma coisa ou outra…). A melodia é formada pelos sons SUCESSIVOS, ou seja, um após o outro, uma flauta tocando, p.ex. Por isso que uma conversa deve ser melodiosa, pois as pessoas não falam ao mesmo tempo, certo?

Já a harmonia é a ocorrência de sons distintos AO MESMO TEMPO, tal como um coral cantando, que une vozes diferentes e o som se completa e complementa, num coro harmonioso. Um instrumento harmonioso é o piano, que faz notas diferentes ao mesmo tempo.

O lar feliz (harmonioso) é onde os sons, mesmo diferentes, se completam e sua soma é mais bela do que quando estão isolados. Assim é o casal feliz: eles são mais bonitos juntos do que separados, já reparou? Um casal harmonioso é uma soma de pessoas diferentes que converge para um objetivo comum: prover felicidade ao outro. Não é simples entender isso? Agora, por em prática é que são elas…

Então, como escolher bem? Em primeiro lugar, não se impacientando e não se precipitando. Se você se deixar levar pela impaciência, vai acabar se desesperando, o que vai levar, invariavelmente, à precipitação. Juntando tudo isso, está pronta a receita para o desastre. Segunda grande dica para evitar escolhas erradas: pedindo a Deus sabedoria para saber analisar o caráter e inteligência para avaliar o comportamento atual da potencial vítima escolhida. Algo importante a ser dito aqui: o passado é importante, mas não quer dizer que seja taxativo, afinal alguém sempre pode levantar a cabeça e dar a volta por cima, não é mesmo?

Agora, a dica mais importante de todas: na hora de escolher, feche os olhos e dobre os joelhos! Não entendeu? Peraí que já explico.

renda-se ao trabalhar de Deus

Testemunhando

Essa parte não é fácil de relatar, pelos fracassos pontos já citados, mas tentarei fazer um cronograma dos fatos mais importantes e impactantes dessa área tão marcante em nós, que é a área sentimental.

Assim que as portas do conhecimento e da intelectualidade se abriram para mim (leia-se universidade), outras portas se abriram também, e conheci uma garota na festinha de recepção aos novos universitários, chamados de feras. A lembrança mais marcante de minha entrada na faculdade é que entrei quase “careca”. Muita gente me chamava de “fera” e eu me achando o máximo, mas era só uma forma de dizer “novato”, recém-chegado… #vergonha_alheia

Com essa moça, a quem chamarei de C., engrenei um namoro sério que durou a eternidade de quase 2 anos. Por que eternidade? Porque brigávamos feito gato e rato… bom, pra ser sincero, ela fazia de mim gato e sapato. Ficamos noivos mas, graças a Deus, o noivado não foi pra frente. A forma de ruptura foi cruel: eu tentei romper e ela não aceitou. Reatamos para, semanas depois, entrarmos em sociedade: ela entrou com o pé e eu com o traseiro. Nome do empreendimento: Pé na Bunda Tábua.

pe-na-bunda

entendeu como foi? pois é…

Para piorar, ela retornou ao seu antigo namorado imediatamente e, menos de 1 mês do rompimento do noivado, já estava grávida do “outro”. Sofri horrores, fiquei praticamente 1 ano ginecofóbico (com medo de mulher). Nesse período, recebi proposta de 2 garotas bacanas para ser namorado delas, da forma que eu me sentisse melhor, mas a ferida ainda estava aberta, sangrando, e meus lábios ainda não estavam aptos a encontrar-se novamente com lábios femininos. Tem base?

Mas, numa coisa essa grande decepção ajudou: arou (preparou) o terreno duro de meu coração para que a semente do evangelho fosse lançada e germinasse. É assim mesmo, quando Deus não encontra espaço em nossas vidas, Ele permite dissabores que rasgam nosso coração para que possamos prestar atenção aos Seus apelos e chamados… Foi assim comigo, pois é, pois foi.

Convertendo

Como a conversão é assunto para outro post (risos), vou só mencionar que após converter-me, as coisas não melhoraram da noite para o dia, não senhor. Aliás, eu estava namorando uma garota super gente fina quando me converti. Mas, a entrada de Cristo em minha vida não foi suficiente para que eu me consertasse emocionalmente de forma imediata. Ainda havia muita coisa a ser tratada, renunciada, trabalhada. Resumindo: sofri bastante até encontrar o ponto de equilíbrio entre meus desejos e a vontade do Senhor.

Uma coisa que marcou meu início de conversão foi um encontro casual com C., anos depois de nosso rompimento, na entrada do bloco de aulas da Universidade. Eu chegando, ela saindo. Cumprimentamo-nos e ela, despretensiosamente, comentou sobre sua vida de casada – nem me lembro porque. Sem quê nem pra quê, ela soltou a pérola (para não usar outro nome…): “Hoje estou casada com ele, mas se um dia eu achar que não dá mais certo, eu chego em casa, arrumo minhas coisas e digo que estou indo embora. Essa utopia de casar até que a morte os separe não existe”.

Não sei bem porque, mas não consegui engolir calado isso. Olhei bem dentro dos olhos dela e soltei a bomba: “É, mas quando eu casar, vai ser até que a morte nos separe. EU vou viver essa utopia!”. Botei pra lascar. Ela ficou toda sem graça, baixou a cabeça, balbuciou umas palavras desconexas, enfiou a viola no saco e foi embora. Anos depois, cumpriu-se a palavra que ela havia dito sobre sua vida conjugal. Todavia, não foi ela quem tomou aquela atitude, ela foi a vítima do desamparo e da solidão. E não gostou nem um pouco da experiência, muito pelo contrário.

Como eu estava dizendo, a conversão só trouxe perdão aos meus pecados, mas não consertou meus relacionamentos, até porque eu precisava me corrigir na área emocional, alinhando meus desejos, anseios e inquietudes ao padrão da vontade divina, coisa que eu não sabia, naquela época, o que era nem pra que servia. Resumindo: continuei colecionando fracassos emocionais e relacionamentos destruídos.

Meu último relacionamento foi a gota d’água, e nem vou botar a culpa em ninguém, porque minha cota de erros foi tamanha que seria desonesto de minha parte imitar Adão culpando Eva pelo seu erro. Também por isso, não vou entrar em detalhes, mas apenas dizer que, em uma suave manhã de carnaval, na virada do século XX, mais precisamente no carnaval de 2000, marquei um encontro com Deus na sombra de uma frondosa mangueira do quintal. Foi uma conversa… marcante.

Eu estava desconfiado que esse último relacionamento, que havia sido rompido recentemente, iria me trazer mais dores ainda do que quando estava ativo, até por conta de um sonho que tive. Então, em uma manhã de carnaval (segunda ou terça, não me recordo), meus pais foram à praia e resolvi ficar em casa para acertar os ponteiros com o Senhor.

Sentei-me em um tronco caído no chão, peguei um graveto e comecei a riscar na areia, enquanto expunha meus argumentos ao Senhor:

“Jesus, eu gosto de B. [ex-namorada], e quero casar com ela. Mas, Senhor, estou sentindo que ela vai namorar com outro rapaz. Senhor, se ela namorar outro, eu não quero ela nem pintada de ouro mais! E tem mais, Jesus, se não for ela com quem vou me casar, tem que ser uma melhor do que ela. Sim, porque igual a ela não tem, é só ela. Pior eu também não quero. Então só sobra a melhor. Eu quero que ela seja melhor em tudo pra mim. E outra coisa, não quero mais sofrer por isso. A partir de hoje, eu não vou mais namorar, eu vou casar. Minha próxima namorada vai ser minha esposa!”

Na quinta-feira daquela mesma semana fiquei sabendo que ela havia anunciado que estava namorando outro rapaz. Então, minhas esperanças de voltar a namorar com ela e até me casar ruíram ali mesmo. E tive que arcar com o peso da responsabilidade de cumprir meu compromisso de não namorar mais com outra jovem que não fosse minha futura esposa. Mal sabia eu as implicações dessa decisão, os anos de solidão a que me submeteria, vivendo como um eunuco indeferindo propostas de namoros e casamentos… #donjuan #sangue-fogo-e-coluna-de-fumaça® (marca registrada da Priscila, uma amiga nossa)

Tocando o sobrenatural

Aqui relato sobre as experiências que vivi e que me alimentavam o espírito nos anos de solidão que se seguiram àquela desmiolada irredutível decisão. Muita coisa vou escrever de cabeça, pois não fiz um relato cronológico e sequencial, o qual vejo hoje como interessante e necessário para recontar essa história. Ainda estou tentando convencer minha costela a contribuir com sua visão da história, mas não está sendo fácil… tô pensando em chantageá-la com um jantar romântico (risos), mas não sei se vai surtir efeito. #project_FAIL (rá!)

1º sinal: uma visão de minha futura esposa.

Foi assim, numa noite de domingo, bem após o culto, por volta da meia-noite, após orar e me deitar, de olhos fechados, mas sem pensar em nada, então, sem mais nem menos, vi uma moça ao longe, escorada em uma espécie de cerca, sorrindo. O que mais me chamou a atenção foi o cabelo dela, de um preto liso – e lindo! – por volta da cintura. O Espírito falou ao meu coração: “essa é a moça”. Foi tudo muito rápido, abri os olhos e fiquei meditando o que seria aquilo. Passou.

2º sinal: outra visão da “costela”.

Desta feita, estava eu dirigindo, de retorno para casa após um dia de trabalho, uns 15 dias depois da primeira visão, mais ou menos em maio de 2000. Ao fazer uma curva, em fração de segundos, passou uma visão da mesma moça, agora bem mais próxima e que dava para identificar a fisionomia, sentada em uma cadeira de salão de cabeleireira, segurando os cabelos pretos acima da cabeça, em forma de coque. Nessa vez, eu estava de olhos abertos, até porque não se dirige de olhos fechados, certo (dããã) ? Pelo menos essa segunda visão me serviu para ver como era seu rosto, pois a única coisa que havia guardado na lembrança foi seu cabelo longo, preto e liso.

O único que havia visto igual, até aquele dia, tinha sido o da cantora Fernanda Brum. Aliás, houve um dia em que cheguei a tc (teclar) com ela num chat do (hoje quase esquecido) BibliaWorldNet. De início, nem acreditei que era ela, mas ela confirmou que sim, e cheguei até a comentar com ela sobre a visão e tal e que, se eu chegasse a me casar com a moça dos cabelos parecidos com os dela, entraria em contato. O maridão chegou, ficou com ciúmes (risos), ela saiu do chat e eu fui pra igreja. Nunca consegui entrar em contato com ela pra dizer que me casei com a moça do cabelão… hehehe. Olha uma foto pra você babar.

Ainda em Natal, conheci uma irmã que fazia uma vigília na casa dela e que me falou algumas coisas interessantes que, até um tempo atrás, eu tinha isso guardado por escrito:

  • que a moça da visão tinha chamada missionária (é verdade);
  • que possuía conhecimentos na área médica (ela é técnica em enfermagem);
  • que os pais dela iriam gostar de mim (minha sogra me chama de filho);
  • que ela era formada (na época, só em teologia, depois que nos casamos, formou-se secularmente);
  • ainda tinha outra coisa, mas não me lembro agora, afinal faz mais de 10 anos.

Antes de me mudar de Natal em dezembro de 2000, rumo ao extremo norte do Mato Grosso, comprei uma mini-Bíblia e fiz uma dedicatória para a moça da visão, que sequer sabia o nome, endereço, idade, nada. Esse presente eu dei um pouco antes de nos casarmos, o qual ela guarda com carinho, inclusive o bilhete manuscrito.

Já no norte do Mato Grosso, conheci um homem de Deus do Ceará (como diz o ditado: grande é a Seara, mas poucos são os cearenses) que estava passando uns dias no Mato Grosso, e o Senhor o usou para falar comigo que Ele iria me dar uma pedra preciosa para mim, um diamante, e que eu cuidasse com carinho dela, entre outras coisas.

Relato de Eva: ela me disse que um irmão cansava de lhe dizer – “quando olho pra você, o Senhor sempre me mostra um diamante!”. A primeira vez que lhe disse isso, ela ficou quase sem fala, então me falou sobre esse detalhe. Outra ocasião foi quando comentei que sou descendente de judeu, bem lá atrás da serra: após uns momentos constrangedores de silêncio, ela comentou que uma irmã teve um sonho indo ao casamento dela (Eva) e contou para sua mãe. No sonho, contou essa irmã, minha sogra vestia um longo azul (de fato, vestiu mesmo, muito bonito) e o noivo (este humilde blogueiro que vos escreve) era de longe, muito longe (YES!) e era descendente de judeu (votz!). Tem base?

Quando me mudei para Cuiabá, no fim de 2003, conheci um irmão (Mário) da igreja onde fui congregar e, num domingo, almoçando com ele e esposa, ele parou um tempo e falou sério comigo: “Você tem alguma coisa contra pessoas morenas, de cor”? Eu respondi que não, daí ele me disse assim: “o Espírito Santo acabou de me dizer que sua esposa vai ser uma pessoa de cor, uma morena”, ao que lhe respondi “amém”. Aqui acabam os fatos sobrenaturais que me lembro e que foram relevantes neste tema.

Encontrando a Rebeca ou Vendo o sonho se tornar realidade

No começo do ano de 2004, recém-chegado a Cuiabá (pense num lugar quente), a solidão começou a incomodar mais do que o usual e parecia que a graça para permanecer sozinho, largado e abandonado solteiro estava vencendo seu prazo. Assim, no começo de 2004, comecei a dizer que eu iria casar até o fim do ano. Quando alguém me dizia: “que bênção! mas quem é a noiva”? Minha resposta: “então, esse é um pequeno detalhe que está faltando ainda…”

Logo antes do carnaval de 2004, a solidão desceu sobre mim com todo seu peso e potência. Em uma noite, encontrava-me no banheiro, após um dia de trabalho cansativo e desgastante a situação atingiu seu ápice. Eu comecei a reclamar com Jesus e dei um ultimato ao Senhor:

Jesus, vai fazer 4 anos que fiz aquele compromisso de me preservar somente para minha esposa e que o Senhor me deu as visões de como ela seria, mas até agora, eu nunca vi essa moça na minha frente e nem sei se ela existe. Então, Senhor, eu não aguento mais essa espera que não acaba. Se essa moça existe, eu vou encontrá-la neste carnaval, se não, eu mesmo vou escolher do meu jeito! O que eu não esperava é que o Senhor estivesse me ouvindo… então, Ele me respondeu: “E você está disposto a aceitar aquela que tenho para lhe entregar?

Confesso que gelei. Pensei por alguns segundos, respirei fundo e respondi ao Senhor: “sim, vou aceitar sim, mas com uma condição. Eu quero ser feliz. Até hoje nunca fui feliz em meus relacionamentos anteriores. Minha única condição é que quero ser feliz”.

Pois é, pois foi, só sei que foi assim (#Chicó, personagem de O auto da compadecida).

O encontro

No começo do ano de 2004, eu fui escalado para trabalhar na barraca do grupo de jovens da igreja, em uma iniciativa para arrecadação de fundos para ajudar a pagar as despesas das festividades de maio. Fomos na quinta ou sexta à noite (não me lembro ao certo), que era a abertura da festa da UMADECRE, no fim de semana do carnaval. Nessa noite, caiu um pedaço do céu choveu às bicas e eu, timidamente acomodado embaixo da lona da barraca, fui agraciado com uma gripe homérica incômoda.

Assim, no sábado pela manhã, senti um pequeno mal-estar, talvez uma queda de pressão e fui no posto de enfermaria para aferir a pressão e verificar se estava tudo bem. O local era quase uma caverna uma sala embaixo da rampa de acesso, bem escondida. Após identificar-me e dizer que gostaria que medissem minha pressão, fiquei sentadinho aguardando a responsável pela enfermaria. Quando ela chegou, eu logo a identifiquei por conta do uniforme todo branco.

Ela ficou de costas para mim, e estava com o cabelo preso. Não sei por qual motivo (digo: hoje sei, a presilha estava quebrada e a machucava), ela soltou os cabelos e ficou arrumando na minha frente, já que eu estava logo atrás dela, em um banco de madeira junto à parede. Eu nem dei muita bola, até o momento em que olhei melhor e vi que seu cabelo era preto, liso e longo, na altura da cintura. Naquele momento, a ficha caiu e só consegui pensar: “Jesus, o Senhor tá de brincadeira comigo“? Foi desse jeito…

Enquanto a moça tirava minha pressão… digo: enquanto a moça aferia minha pressão (risos), eu ficava olhando pra ela e coisa e tal, e refletindo cá comigo. Lembrando do que o irmão havia dito – que ela era morena – e do que o Senhor havia dito – vai aceitar? Comecei, então, timidamente, a sondar o terreno perguntando amenidades e outras coisas mais. Mais algumas tiradas de pressão e eu ficava quase sem fôlego ao vê-la (rá!). Trocamos telefone e ficamos de conversarmos mais depois do término da festa.

Tivemos alguns desencontros, inclusive numa vez em que saímos juntos, eu barbarizei e fiz uma grande besteira: chamei ela pra um lanche juntos. Eu tinha pouco $$, ficamos rodando um tanto, cheguei a convidar ela pra apreciar uma tapioca (que ela não quis, não sei por que…), até que decidi levá-la ao ululante McDonald’s. Fiz o pedido, perguntei o que ela queria, mas na hora de pagar, falei que iríamos rachar (a conta). Ela fez uma cara de quem queria rachar minha cabeça (#vergonha), disse que não havia levado dinheiro e desistiu de comer, até por conta do tamanhico da tortilha. Ainda dei mais uma rata e ela saiu fervendo do Mac, me deixando sozinho. Tive que sair correndo na rua atrás dela… pense na cena!

Depois disso ela ficou quase 15 dias sem querer me atender no telefone e uns bons anos sem querer pisar num McDonald’s de novo (que maldade, né… ). Houve outros percalços no caminho, um período tenebroso em que perdemos o contato (perdi ou joguei fora o número dela, depois que ela me deu uns foras… hehehe), mas por causa de uma amiga em comum, voltamos a nos falar. Iniciou-se o período das conversas até altas horas (ou altas conversas por horas). Ela não gostava muito quando eu ligava a cobrar, mas tudo bem… #eu_sou_de_morte

Hoje, se eu fosse aconselhar alguém a cortejar uma moça da igreja, teria muitos conselhos a dar, mas aos leitores deste relato, tenho a lhes dizer: façam o que eu fiz, só que ao contrário! Mas, olhando para trás hoje, entendo o que aconteceu: ela era muito paparicada pelos pretensos pretendentes (uia!) e estava acostumada a ser tratada como boneca de porcelana. E eu cheguei para quebrar esse paradigma (entendeu né!). Assim, ela começou a prestar atenção em mim: “quem ele pensa que é para me tratar assim”?. Dessa forma, ela se via obrigada a pensar em mim, mesmo sem querer. #triste_destino

E o namoro?

Ah, esse é um assunto interessante. Lembra da minha promessa de não namorar, mas casar? Então… nós nos casamos sem namorar. Calma, eu explico. Na verdade, nós fomos nos conhecer, conversamos muito (muito), mas encontrar-se mesmo, sair como namorados, apresentar aos amigos, família, etc., não houve nada disso. Quando eu vim a conhecer seus pais, nós já havíamos decidido nos casar e até marcado a data do casório (!). Até pra pedir a mão dela eu aprontei: como não sou muito bom nessas coisas, estávamos eu, o pai e um cunhado dela falando sobre casais, então aproveitei a deixa e disse: “já que estamos falando de casamento, quero aproveitar pra pedir a mão da Eva pro senhor”! (risos)

Mas, quer saber? Eu não tenho um pingo de arrependimento de não ter namorado, e vou dizer porquê:

  1. nós não sabíamos se iríamos casar mesmo, e eu não queria namorar para depois voltar à estaca zero de novo.
  2. eu estava bem ciente de meu compromisso de não namorar outra que não fosse minha esposa, e só saberia disso após… casar!
  3. houve uma série de fatores que nos deixou, principalmente eu, com dificuldades de nos encontrarmos fisicamente por até 30 dias!
  4. o lado bom de não termos namorado antes de casar é que, hoje, a gente namora à vontade, sem pressa e sem… entraves.

Quando, após checar todas as condições e requisitos das promessas e profecias anteriores, chegamos à conclusão que o negócio era orar e ver se Deus aprovava nossa união. Marcamos um período de tempo (aprox. 30 dias) para buscar o Senhor e entender Sua vontade para uma decisão tão impactante em nossas vidas, ainda mais se se levasse em conta o fato de que 2 solitários iriam ter que juntar as escovas dali em breve, era um forte motivo para orar.

Não sei dizer se por conta das experiências anteriores (o caso do McDonald’s, as ligações a cobrar, o intervalo de tempo para se ver, etc.), ela orava quase todo dia pedindo a Deus que não fosse eu (!). Ela orava, chorava, até falava em mistério – oh glória! – e levantava agradecendo a Deus que não era eu o seu Adão. Eu não reclamo, afinal, eu fiz por merecer essa reação, não é verdade?

Então, quando venceu o prazo, até havia passado uns dias, liguei pra perguntar se ia dar rolo o que ela havia decidido sobre nós. Mal sabia eu que ela até jejuava pra que o Senhor afastasse dela este cálice (euzinho aqui). Bem no dia em que liguei, ela havia acabado de orar, agradecendo ao Senhor o grande livramento e eu, pobre inocente, nem sabia o que me aguardava.

Conversa vai, conversa vem, enchi o peito e lasquei-lhe a pergunta crucial: “E aí, vai ou racha”? Ela respondeu, sem pensar muito: “Pois é, rachou” [um minuto de silêncio em sinal de luto].

Confesso: fiquei sem chão. Fiquei alguns momentos em silêncio, sem saber o que fazer ou o que dizer. Eu não estava esperando aquela resposta. Então, já que não havia mais nada a fazer, e nem muito o que pensar, joguei a toalha. Comecei a dizer o quanto eu sentia por aquilo, que eu estava já me acostumando com a idéia de casar no fim do ano (isso era em setembro, se não me engano) e já pensando em como seria uma vida a dois. Destilei um pouco do meu rosário de murmurações, mas aceitei com resignação o destino cruel que me esperava, com a solidão de braços abertos e dentes escancarados acenando para mim.

Então, naquele momento, alguma coisa se partiu dentro de mim e, sentindo essa coisa se esvaindo e me esvaziando, disse-lhe aquilo que eu julgava ser a coisa mais importante a ser dita antes de desligar o telefone e desligar-me dela também: “bom, tudo bem, já que nós não podemos casar, então vamos ser amigos”. Mas, eu não queria ser amigo. Eu não podia ser amigo. Eu não tinha condição de ser amigo. Eu estava dizendo ADEUS de uma forma elegante, tal como queria fazer José ao se afastar de Maria sem denegri-la. Eu estava decidido a sumir, desaparecer, escafeder-me da vida dela, sem deixar rastro. Como eu faria essa proeza, ainda não sabia, mas que o faria… ah, eu faria sim.

Ainda fiquei alguns minutos chorando as pitangas de minha súbita e repentina rejeição, mas já introjetando a necessidade de um tempo de solidão dolorida e resignação antes de partir para outra. Partir para outra, ainda que literalmente falando, não era a prioridade no momento, embora a necessidade fosse urgente. Se você não entendeu o urgente, é porque você ainda não estudou os efeitos da química biomolecular, da física quântica e da biologia reprodutiva atuando em conjunto e ao mesmo tempo no corpo de um pobre homem solitário, no auge do vigor masculino. Sentiu o drama?

Então, como eu já estava falando sozinho há alguns longos minutos, pensei que era hora de parar a ladainha da solidão, afinal não era culpa dela eu estar sozinho na prateleira das emoções, sem ninguém querer me levar ao caixa e pagar o valor da minha etiqueta. Talvez eu estivesse superfaturado, quem sabe? Talvez próximo do prazo de validade. Talvez fosse momento de eu sair de cena por alguns momentos, dar uma repaginada na embalagem e voltar como se fosse um lançamento no mercado do coração. Mas, sinceramente, nada disso era primordial naquele momento. Estava doendo, e era só o que eu sentia. E eu ainda não sabia o que me aguardava após o clique do fone.

Já prestes a por fim à ligação e dar início – ou reinício – à dor da solidão, Eva balbuciou umas palavras quase inaudíveis. Como não entendi, pedi para que ela repetisse. Pano rápido: tenho que relatar o que se passou em sua mente após eu dizer “então vamos ser só amigos“. Não desligue.

Fala de Eva: quando a frase “já que não podemos casar, então vamos ser amigos” chegou aos seus ouvidos, algo de sobrenatural aconteceu. Foi como se uma voz dissesse dentro dela: “ele não vai ser seu amigo, ele vai se afastar e você não vai vê-lo mais”. Aquela revelação teve, para ela, o mesmo efeito que teve a frase “rachou” pra mim: deixou-a sem fala e sem saber o que fazer. E agora? Ele vai sumir, e as nossas conversas animadas, nunca mais? E nossos encontros esporádicos, quando compartilhávamos o abraço mais gostoso desde a última vez, nunca mais? Nunca mais. Uma decisão urgente precisava ser tomada, e uma palavra ser dita. O que fazer?

Então, naquele mítico momento, ela experimentou a sensação de que Deus havia ouvido suas orações e ela teria o que tanto queria: que eu não fosse seu esposo, não precisar mais se preocupar comigo e não ter que me aturar mais. Todavia, apesar de ser isso que ela pedia com tanta fé e intensidade, ao ser confrontada com esse cenário, o sentimento que ela experimentou foi contraditório: ela sentia como se uma parte dela estivesse indo embora, para não mais voltar. E essa sensação não era nada boa.

Assim, enquanto eu me desmanchava em reclamações sem sentido, ela praticamente não me ouvia do outro lado da linha, absorta nesse espiral de sentimentos conflitantes. Quando eu já me preparava para o adeus definitivo, ela conseguiu romper a barreira do som silêncio e disse, em som quase inaudível: “Eu caso!

Subindo o pano, eu de volta. Eu ouvi uma frase sussurrada, quase ininteligível. Será que ela disse “eu caso”? Não… Então, pedi que ela repetisse: o que foi que você disse? Se eu pensava que ela iria repetir em alto e bom som, me enganei, pois saiu um murmúrio quase igual ao anterior: eu caso. É, caro leitor(a), você estava aí pensando que é fácil conquistar alguém? Não é fácil. Os melhores peixes são os que não caem em qualquer anzol e por qualquer iscazinha “fuleira“.

Bom, já que ela disse que casava, então foi a minha vez de botar banca (risos). “Mas eu quero casar este ano!”, disse eu. E ela: “mas, Wallace, nós estamos em setembro, não dá tempo!”. E eu: “não tem problema, mas eu quero casar até dezembro”. Mas, mas… Não, não: dezembro! Quer ou não quer? “Tá bom, eu caso”. “Ok, disse eu, então já vamos marcar a data do noivado pro mês que vem e o casamento pra dezembro. Então estamos combinados. Beijo, tchau”, e desliguei o telefone já pensando no como seria, etc. Ela, ao desligar o telefone, a primeira coisa que fez foi cair de joelhos e dizer: “Meu Deus, o que foi que eu fiz? Que besteira acabei de fazer?” e lá foi ela orar de novo, chorar e pedir misericórdia a Deus. Arre! Quem entende essas mulheres? (risos).

Depois disso, para mim já estava tudo resolvido, só faltava marcar as datas e partir pro abraço (entendeu, né!). Eu sou assim: comigo é pá-tim-bum! Mas, eu não sabia que, dentro dela, ainda havia uma certa resistência e uma pequena esperança de me fazer mudar de idéia quanto à data do casamento, que ela queria postergar para o próximo ano. Preciso explicar que ela não conseguiu seu intento? Mas, justiça seja feita: ela tentou e lutou bravamente. Em vão, mas lutou. #eu_sou_irredutível

Quando eu falava sobre marcar a data do casamento, ela desconversava. Fui deixando, dando corda, uma hora a corda estica, não é mesmo? Até que, uns 15 dias depois daquela conversa reveladora, eu encostei ela na parede: você vai falar com o pastor ou eu vou ter que falar? Foi quando ela viu que não havia retorno e ela descobriu um pouco mais com quem ela estava lidando, mas aí já era tarde (risos). Ela disse: eu vou marcar o dia para irmos conversar com ele e marcar a data. Ficou agendado para o sábado daquela semana, quando decidimos pelo sábado antes do Natal, e o noivado seria o último domingo de outubro.

Para não deixar uma aura de injustiça pairando sobre a cabeça dela, vou revelar que um de seus maiores medos era um cisto que ela carregava no ovário, que lhe trazia muitas dores e temores. Esse cisto foi retirado uns 3 meses após nos casarmos, mais ou menos, e, graças a Deus, era benigno – continha apenas líquido -, mas que chegou a pesar quase 1kg e media o tamanho de uma bola pequena. Felizmente, ela praticamente não teve sequelas nem da cirurgia – que também foi uma provisão do Senhor – nem da remoção do intruso.

Uma coisa interessante, e que não deixou de ser engraçada, pelo menos para nós, foi que na segunda seguinte àquele sábado, um amigo dela foi em seu trabalho conversar com o pastor (ela trabalhava no Grande Templo, onde ele atendia às segundas). E ele, enquanto esperava o pastor chegar, comentou que estava indo falar com o pastor para marcar a data de seu casamento.

Ela, então, lhe respondeu: “é mesmo? que bênção” e ele falou da moça, que era de fora e era uma promessa que se cumpria, etc. E ela lhe perguntou qual seria a data, ao que ele respondeu “no sábado tal de dezembro”. Eva deu uma risadinha e falou: “ah, não vai não…“, ao que ele respondeu “por que não”? Porque nessa data já tem um casamento marcado. De quem? O meu! Aí foi a vez dele cair na risada.

Como ela permaneceu séria, fitando-o, ele foi perdendo a graça e falou: “ah, você está brincando”! Não estava. Ele ficou vermelho de raiva, perguntou quando ela tinha conversado com o pastor antes dele, que já fazia quase 15 dias que era para ele ter conversado com o pastor, mas ficou adiando. Saiu de lá indignado e ela ficou sorrindo à toa. Ele terminou casando na sexta, e nós no sábado. Quem ri por último ri como mesmo?

Para concluir a história, houve uma movimentação em torno de nosso casamento que não esperávamos, e um apoio além do que imaginávamos, embora estivéssemos precisando mesmo. Fizeram um chá de noivado pra mim e ganhei muita coisa útil, a começar por um pijama. Fazia décadas que eu não sabia o que era usar um… Ela também teve um chá de noiva, e ganhou muito mais coisa do que eu, claro. Jogos de toalhas, por exemplo, mesmo após 5 anos de casados, não tivemos necessidade de comprar. O Senhor nos supriu com tudo, praticamente, de mais necessário.

Na noite do casamento, nossos padrinhos pareciam mais um batalhão em forma: eram 22 do lado dela e 18 do meu (já pensou se desse briga?), se não me falha a memória. Minha mãe, avessa a igrejas evangélicas, até se emocionou quando o conjunto das irmãs do qual Eva foi regente por vários anos cantou, com umas 50 componentes no dia, aproximadamente. Foi, segundo alguns amigos, o casamento do ano, e olhe que antes do nosso houve vários e muito mais financiados (com mais $$). Na verdade, nós gastamos pouco, em parte pelo fato de que não tínhamos dinheiro e por outro lado porque o Senhor levantou pessoas para nos ajudar em várias frentes, sem as quais nem festa haveria.

Talvez a pergunta que você queira me fazer seja: e hoje, após 6 anos de casados, você se arrepende? De modo algum. Eu posso afirmar, sem qualquer receio, que a melhor coisa que fiz na vida foi casar com Eva. Mas, também tenho plena consciência de que, se a mesma pergunta for feita a ela, a resposta talvez seja um pouco… diferente da minha (risos). Nós não somos um casal perfeito, nem de longe quanto mais de perto. Temos muitos defeitos, sendo que mais da metade são meus. Mas, somos um casal feliz. Deus atendeu minha condição: eu queria ser feliz. E sou. E, no fim das contas, noves-fora, é isso o que realmente conta.

Hoje, meu maior esforço é tentar fazer minha esposa feliz. Ainda não consegui totalmente, estou bem longe, na verdade, mas também não desisti. Enquanto não atinjo meu objetivo de fazê-la feliz, vou tentando ganhá-la com um presentinho aqui, um beijinho ali, um xêro no cangote acolá, um cafuné antes de dormir… Um dia eu chego lá. Eu sou brasileiro romântico e não desisto nunca!

E também fico por aqui, no blog Desafiando Limites, tentando – em vão – fazer meus leitores rirem de minhas presepadas e fanfarronices (rá!). Agora, sério, quem vai conseguir ler isso tudo e ainda chegar até aqui com vontade comentar? Sinto-me falando sozinho, neste momento #forever_alone.