O Efeito Diderot: Por que desejamos coisas que não precisamos – E o que fazer a respeito

O Efeito Diderot: Por que desejamos coisas que não precisamos

– E o que fazer a respeito

diderot effect

Denis Diderot como retratado por Louis-Michel van Loo em 1767.

Nesta pintura Diderot está vestindo um roupão semelhante ao que originou seu famoso ensaio sobre o efeito Diderot.  

O famoso filósofo francês Denis Diderot viveu quase toda a sua vida na pobreza, mas tudo isso mudou em 1765.  

Diderot tinha 52 anos e sua filha estava prestes a se casar, mas ele não podia dar ao luxo de fornecer um dote. Apesar de sua falta de riqueza, o nome de Diderot era bem conhecido, porque ele era o cofundador e escritor da Encyclopédie, uma das enciclopédias mais abrangentes da época.  

Quando Catarina a Grande, a imperatriz da Rússia, ficou sabendo dos problemas financeiros de Diderot, ela se ofereceu para comprar a biblioteca dele por 1000 libras, o que é aproximadamente 50.000 em dólares de 2015. De repente, Diderot tinha dinheiro de sobra. [1]  

Logo após sua afortunada venda, Diderot adquiriu um roupão novo escarlate. Foi a partir daí que tudo começou a dar errado. [2]  

O roupão escarlate de Diderot era lindo. Na realidade, tão bonito que ele imediatamente percebeu o quanto parecia fora de lugar quando rodeado pelo resto de seus pertences. Em suas palavras, “não havia mais coordenação, mais unidade, mais beleza” entre o manto e o resto de seus itens. O filósofo logo percebeu a necessidade urgente de comprar algumas coisas novas para combinar com a beleza de seu manto. [3]  

Ele trocou seu velho tapete por um novo de Damasco. Ele decorou sua casa com belas esculturas e uma mesa de cozinha melhor. Ele comprou um novo espelho para colocar sobre a lareira e sua “cadeira de palha foi relegada à antessala por uma cadeira de couro.”  

Esta reação em cadeia de compras ficou conhecida como o Efeito Diderot.  

O Efeito Diderot declara que obter uma nova posse frequentemente cria uma espiral de consumo que leva você a adquirir mais coisas novas. Em consequência, acabamos comprando coisas que nossas personalidades anteriores jamais precisaram para se sentir felizes ou realizadas.  

Como muitos outros, eu fui vítima do Efeito Diderot. 

Recentemente eu comprei um carro novo e acabei comprando todos os tipos de acessórios internos dele. Comprei um calibrador de pneus, um carregador de carro para meu celular, uma sombrinha extra, um kit de primeiros socorros, um canivete, uma lanterna, cobertores de emergência e até uma ferramenta para cortar o cinto de segurança.  

Permita-me salientar que tive meu carro anterior por quase 10 anos, e nunca senti que qualquer dos itens previamente mencionados valiam a pena ser comprados. E, no entanto, depois de obter o meu radiante carro novo, percebi que estava caindo na mesma espiral de consumo como Diderot. [4]  

Você pode detectar comportamentos similares em muitas outras áreas da vida:  

Você compra um vestido novo e agora você tem que ter sapatos e brincos para combinar.  

Você entra em um programa de CrossFit e logo está pagando por rolos de espuma, joelheiras, munhequeiras, e planos de alimentação paleolítica.  

Você compra para sua filha uma boneca American Girl e se vê comprando mais acessórios que jamais imaginou que existissem para bonecas.  

Você compra um sofá novo e de repente você está questionando a disposição de toda a sua sala de estar. Essas cadeiras? Essa mesa de café? Esse tapete? Todos eles têm que sair.  

A vida tem uma tendência natural para se tornar preenchida com mais. Dificilmente tentamos voltar atrás, simplificar, eliminar, reduzir. Nossa inclinação natural é sempre acumular, acrescentar, renovar e reformar.  

Nas palavras da professora de sociologia Juliet Schor:

“a pressão para atualizar nosso estoque de coisas é implacavelmente unidirecional, sempre ascendente.” [5]  

O Efeito Diderot nos diz que a vida só vai ter mais coisas batalhando para entrar nela, então você precisa entender como administrar, eliminar e se concentrar nas coisas que importam.  

Exponha-se menos. Quase todos os hábitos são iniciados por um gatilho ou estímulo. Uma das maneiras mais rápidas para reduzir o poder do efeito Diderot é evitar seus efeitos desencadeantes, em primeiro lugar.   

Cancele os e-mails comerciais. Ligue para as revistas que lhe enviam catálogos e exclua-se da lista de destinatários dele. Encontre amigos no parque ao invés do shopping. Bloqueie seus sites de compras favoritos usando ferramentas como o Freedom.  

Compre itens que se encaixam no seu sistema atual. Você não precisa começar do zero cada vez que compra alguma coisa nova. Quando comprar roupas novas, procure por itens que combinem bem com seu guarda-roupa atual. 

Quando atualizar um novo eletrônico, pegue coisas que funcionam bem com seus acessórios atuais, assim você evita ter de comprar novos carregadores, adaptadores, ou cabos.  

Imponha seus próprios limites. Viva uma vida cuidadosamente controlada criando limitações que você tenha que seguir. Juliet Schor nos dá um grande exemplo com esta citação:

“Imagine o seguinte. Um grupo comunitário em nossa cidade organiza um abaixo-assinado dos pais concordando em não gastar mais de US$50 em tênis esportivos para seus filhos. O pessoal da creche de seu filho solicita um limite de US$75 nos gastos para festas de aniversário.   

As reuniões do conselho escolar da comunidade apoiam a troca para uniformes escolares. O Círculo de Pais e Mestres consegue que 80% dos pais imponham limites de no máximo uma hora por dia para seus filhos assistirem TV.  

Você quer que alguém da comunidade ou do colégio de seus filhos tome essa ou outras iniciativas semelhantes? Eu penso que milhões de pais americanos desejariam.  

Televisão, sapatos, roupas, festas de aniversário, uniformes esportivos – estas são áreas onde muitos pais sentem-se pressionados em permitir que seus filhos consumam em um nível além do que eles acham que é o melhor, desejam gastar, ou podem confortavelmente suprir.”  

– Juliet Schor, The Overspent American (sem tradução em português, algo como O Inveterado Consumista Americano)  

Compre um, Dê um. 

Cada vez que você fizer uma nova compra, doe algo a alguém. Comprou uma TV nova? Doe a antiga em vez de mudá-la para outro quarto. A ideia é impedir que o número de itens aumente. Sempre administre sua vida para incluir apenas coisas que lhe tragam alegria e felicidade.  

Fique um mês sem comprar nada novo. 

Não se permita compra nada novo por um mês. Ao invés de comprar um cortador de grama novo, alugue de algum vizinho. Consiga sua nova camisa de um saldão da economia ao invés de uma loja de departamentos. Quanto mais nos impomos limites, mais criativos ficamos.  

Deixe de querer coisas. 

Jamais chegará o dia em que você cansará de querer as coisas. Tem sempre alguma coisa que você pode melhorar. Tem um Honda novo? Você pode trocar por uma Mercedes.   

Comprou uma Mercedes nova? Você pode trocar por um Bentley. Comprou um Bentley novo? Você pode trocar por uma Ferrari. Comprou uma Ferrari nova? Já pensou em comprar um avião particular? Realizar este desejo é apenas uma opção de sua mente, não uma ordem a ser cumprida. 

Como superar a tendência consumista

A nossa tendência natural é consumir mais, não menos. Devido a esta tendência, acredito que tomar providências efetivas para reduzir o grau excessivo de consumo torna nossa vida melhor.  

Pessoalmente, meu objetivo não é reduzir a vida à menor quantidade de coisas, mas preenchê-la com a quantidade ideal. Espero que este artigo ajude você a refletir sobre como fazer o mesmo.  

Nas palavras de Diderot,

“Deixem meu exemplo lhes ensinar uma lição. A pobreza tem suas liberdades; a opulência tem seus obstáculos.” [6]  

James Clear escreve em JamesClear.com, onde ele compartilha as dicas de auto-aperfeiçoamento baseadas em pesquisas científicas comprovadas. Você pode ler seu melhores artigos ou aderir a seus boletins informativos gratuitos para aprender como construir hábitos duradouros.  

Este artigo foi originalmente publicado em www.JamesClear.com

Notas de rodapé:

  1. Além do pagamento pela sua biblioteca, Catarina A Grande pediu a Diderot para cuidar dos livros até que ela precisasse deles, e ofereceu para pagar a ele um salário anual para trabalhar como seu bibliotecário. (Fonte)  
  2. O roupão escarlate de Diderot é frequentemente descrito como um presente de um amigo. No entanto, não encontrei nenhuma fonte original que dissesse que era um presente nem qualquer menção a um amigo que o tivesse dado. Se acontecer de você saber de algum historiador especializado em aquisições de mantos, sinta-se à vontade para me indicar, para que possamos solucionar o mistério da origem do famoso manto escarlate de Diderot.  
  3. As citações de Denis Diderot neste artigo vem de seu ensaio, “Regrets for my Old Dressing Gown.”  
  4. Alguns leitores apontaram que as minhas aquisições foram inteligentes, não desnecessárias. Isso pode até ser verdade, mas ainda assim é um exemplo do Efeito Diderot. Só para esclarecer: O Efeito Diderot significa simplesmente que quando nós obtemos um novo item, nós tendemos a adquirir outros. Não é um julgamento válido que só se aplica às compras desnecessárias. Então, mesmo que as minhas compras tenham sido inteligentes, eu ainda me sinto vítima de comprar mais coisas depois que fiz minha primeira compra. Claro, o Efeito Diderot resulta com frequência em compras desnecessárias, este é o porquê pelo qual foquei este ponto de vista neste artigo. 
  5. “The Overspent American: Why We Want We Don’t Need” (sem tradução em português, algo como O Inveterado Consumista Americano: Por que Queremos o Que Não Precisamos) de Juliet Schor. Capítulo 6.  
  6. Obrigado ao meu amigo Joshua Becker por ter sido o primeiro a despertar meu interesse no Efeito Diderot ao escrever seu próprio artigo sobre este assunto.

Fonte do artigo: The Diderot Effect: Why We Want Things We Don’t Need?—?And What to Do About It

E você, já passou por isso também? Conte aí nos comentários pra gente!

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Wallace

Just another little servant of the Lord Jesus Christ. Apenas mais um pequeno servo do Senhor Jesus Cristo. Editor do blog Desafiando Limites (http://wallysou.com). Crítico do cristianismo evangélico da prosperidade e pensador cristão amador.

Website: http://wallysou.com/

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